O open banking é só o começo

Ele vai acelerar a transformação dos bancos, que precisarão mudar a mentalidade e atuar como plataformas, conectando seus serviços com os de empresas de tecnologia

Agora, é oficial. O Banco Central deu a largada para a regulamentação do open banking no Brasil, o que colocará na mão dos consumidores a decisão sobre o uso e compartilhamento de seus dados bancários. A previsão é que a regulamentação comece a valer em novembro deste ano e seja implementada, por completo, até outubro de 2021. A notícia é boa. O open banking tem o potencial de estimular a competição entre os bancos, baratear e melhorar os serviços financeiros, facilitar transferências, personalizar o atendimento, aumentar a colaboração com as fintechs e gerar grandes inovações na forma como os brasileiros usam o dinheiro.

De forma simplificada, o open banking permitirá no Brasil que uma pessoa (física ou jurídica) autorize outras instituições, além do seu próprio banco, a acessar sua vida financeira. No exemplo do diretor do Banco Central, Otavio Damaso: um outro banco poderá identificar que você vai entrar no cheque especial e oferecer um crédito mais barato. Uma terceira instituição poderá oferecer um financiamento mais atrativo. Qualquer pessoa que seja cliente de um banco poderá ter um aplicativo totalmente personalizado e não com o menu padrão disponível atualmente.

O open banking vai acelerar a transformação dos bancos. Eles precisarão mudar a mentalidade e atuar como plataformas, conectando seus serviços, por exemplo, com os de empresas de tecnologia. Em 2016, quando eu chefiava a inovação do Banco Original, fomos pioneiros em apresentar aos clientes o extrato e saldo no chat do Instagram e do Facebook. Parecia mágica. Mas era só uma questão de conectar serviços através de APIs — um uso que o open banking agora pretende regularizar. Esses exemplos, contudo, são o pontapé desse conceito de “sistema financeiro aberto”.

Ao obrigar os bancos a compartilharem os dados dos clientes, como o BC agora faz, tanto instituições financeiras tradicionais, como as já 100% digitais, precisarão escolher entre duas rotas. A primeira alternativa será investir em um nicho, uma funcionalidade específica, focando em construir o melhor produto do mercado. A segunda alternativa será criar um espaço agregador, multifuncional, um ecossistema de serviços.

No primeiro caso, a empresa pode aproveitar toda sua expertise e histórico de dados para oferecer seu produto no melhor momento ao cliente. É o exemplo do início do texto: ao descobrir quem precisa de crédito e quando, as instituições especializadas nessa oferta podem ir de encontro ao consumidor. Podem também compartilhar o produto com outras empresas e oferecê-lo em diversas plataformas — e não apenas no seu app ou internet banking.

No segundo caso, do ecossistema de serviços, o foco da empresa será nas pessoas. As empresas poderão montar, como o WeChat montou na China, um ecossistema com ofertas diversas (de serviços financeiros ao chat com os amigos), facilitando a vida dos usuários em um mesmo ambiente. O desafio de apostar nessa segunda frente é alto. O banco precisará aprender a trabalhar em outras áreas (não financeiras) e montar uma estrutura totalmente flexível e adaptável para a demanda (às vezes momentânea) do cliente. O que exige rever toda sua forma de atuação e entrar em uma competição direta com big techs e empresas de outros setores. Assim como todo bom investimento, porém, o risco alto é proporcional ao ganho potencial.

O que não dá para o banco fazer é ficar no meio do caminho: não oferecer nem a melhor funcionalidade, nem um ecossistema prático e com boa experiência. O meio do caminho gera situações como a que muitos brasileiros enfrentam atualmente, como a dificuldade em transferir uma previdência para outro banco ou a necessidade de ir até o caixa eletrônico para cadastrar seu celular e, assim, usar o aplicativo do banco. Além de tudo, a possibilidade de ter uma experiência personalizada no app bancário, como a que temos no feed de nossas redes sociais, parece um cenário ainda remoto.

No Reino Unido, que implementou o open banking em janeiro de 2018, os grandes bancos do país avaliam que a regulação compulsória ajudou-os a repensar a forma de trabalhar. Eles têm aprendido a entender melhor os clientes utilizando seus dados — se eles são bons nisso e antecipam as demandas, a chance de o cliente ficar com eles é maior. Têm exercitado a colaboração com parceiros — e não apenas comprando fintechs para eliminá-las da concorrência. Colocaram o desenvolvimento de APIs — que permitem a conexão de serviços de empresas distintas — como prioridade de investimento. E, principalmente, estão focando mais do que nunca na experiência do cliente e não nas taxas que podem cobrar dele. Já é um grande passo.

No Brasil, o open banking tem o potencial de modernizar totalmente o nosso sistema financeiro. Algo necessário e urgente para o futuro breve e para a competição que se avizinha nesta próxima década. Um cenário que incluirá negócios descentralizados baseados, por exemplo, no blockchain. Não dá para agir com a mentalidade tradicional na hora de concorrer com moedas criadas por empresas de tecnologia (como a Libra) e até por governos, como a que a China está fazendo no meio da crise da covid-19. A maior circulação e uso das moedas virtuais pode descentralizar e mudar, por completo, a forma como usamos, gastamos e depositamos nosso dinheiro. Se o banco resistir a colaborar, compartilhar e trabalhar de uma nova forma, é bem provável que não reste clientes. Porque, até lá, é possível que eles não precisem mais de bancos para acessar os seus serviços financeiros.

Artigo publicado originalmente na Noomis.