Como reagir ao coronavírus

Foque no longo prazo; as empresas que olham para um cenário com perspectiva mais ampla podem até perder dinheiro agora, mas construirão as bases sólidas para um futuro

Essa pandemia mexe com o nosso lado emocional, gera polarização (saúde versus economia) e causa pânico no coletivo. Não podemos cair nessa. Como o historiador Yuval Harari escreveu recentemente: “quando os humanos btem boca, os vírus se multiplicam”. Já está claro que a situação atual causará desemprego e inflação (195 milhões de trabalhadores em tempo integral no mundo poderão perder emprego no segundo semestre de 2020, segundo a previsão do início de abril da Organização Internacional do Trabalho). É hora, portanto, de atuarmos para reduzir esses danos. No lado político, tomemos cuidado com o oportunismo que costuma surgir em tempos de crise. É nos momentos fracos que cresce a chance de sermos influenciados.

Prefiro encarar o fato de que o vírus é uma oportunidade de repensarmos o futuro que queremos para nós, como civilização e como indivíduos. As transformações que a situação atual causaram já são enormes. Empresas tiveram que aprender a trabalhar de forma remota, a usar softwares mais eficientes, a colocar no ar aquele comércio eletrônico que sempre postergaram. A rever custos. Tirar do papel finalmente, a tão falada transformação digital. No meu caso, em particular, existia o projeto de migrar as aulas da minha rede de academia para o on-line. Só não havia, por ora, a necessidade. Com a pandemia, acelerei um processo de refazer a arquitetura do negócio, rever custos e repensar em como ganhar uma nova escala.

Do dia para noite, milhões de pessoas passaram a usar o Zoom ou outras ferramentas de videoconferência. E o mais louco dessa história é que estamos recorrendo a tecnologias já existentes. O que ocorreu foi a diminuição, drástica da curva de adoção do “early adopter”. Virou uma reta. Para as empresas e startups que criam um produto novo, o mais difícil é conseguir gerar esse hábito de uso. Mas o coronavírus acelerou a mudança, criando rotinas até então pouco usuais para boa parte da população, como estudar em casa, promover encontros virtuais e fazer compras pela internet (varejistas brasileiros registraram aumento de 180% nas vendas de alimentos, bebidas, saúde e higiene pessoal desde o dia 12 de março, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico). Alguns desses hábitos serão completamente incorporados ao final do isolamento. Porque, se tem algo que o mundo digital sempre nos ensinou, é que quando aceleramos um processo, construímos a base para o futuro. Deixamos um passado para trás.

No futuro pós pandemia, será que fará sentido a gente se deslocar quilômetros todos os dias para realizar uma reunião presencial? Será que fará sentido investir milhares de reais em móveis para montar um escritório? Será que um banco vai insistir em manter uma rede enorme de agências? Será que as escolas continuarão criando espaços gigantescos? Será que os restaurantes, os festivais de shows, as aglomerações físicas manterão a mesma relevância? Penso que aquele conceito de omnichannel, tão difundido no varejo, se aplicará a todos os setores. Estar em vários canais fará mais sentido do que existir apenas fisicamente.

A pandemia trouxe para muito tempo para pensar. Um estudo recente da FGV-Ebape com 620 executivos brasileiros indica que mais de 10,4% deles não está trabalhando e 31% estão com um volume menor de tarefas. Do total, 70% estão agora isolados em suas próprias casas. Por uma questão até de sobrevivência, é o momento de se transformar. Sabe tudo aquilo que você sabia da urgência de mudar ou implementar e estava deixando para o ano que vem? Agora não tem desculpa.

Só tome um cuidado: cada decisão tomada agora tem o poder de impactar milhares de clientes, colaboradores, funcionários e a própria sociedade. Foque no longo prazo. A empresa que eu tenho mais medo de competir é justamente aquela que olha para um cenário com perspectiva mais ampla. São essas que podem até perder dinheiro agora, mas que construirão as bases sólidas para um futuro.

Artigo publicado originalmente na Noomis